Aprendendo a Apertar Parafusos

marcel-duchamp

Duchamp (na minha opinião) representa bem essa situação pós-moderna da técnica.

Está semana eu me deparei com uma coisa que já ouvia falar fazia um bom tempo. Uma coisa que é muito pertinente sobre educação superior no Brasil, que vem chamando a minha atenção sobre certos condicionamentos da vida pós-moderna, é o ensino tecnológico “superior” e o ensino acadêmico padrão (ou bacharelado). Hoje em dia, a busca pelo ensino superior vem crescendo principalmente no Brasil, isto por causa de duas situações, a qualificação profissional e a maioria das pessoas querem se sentir “superiores” a nossos pais ou a outras indivíduos que apenas se formaram no ensino médio, se achando imortais perto dos pobres mortais que não tiveram a mesma oportunidade. Um grande equívoco! Porque metade dessas pessoas se acha mais inteligente e capazes por estarem no ensino superior e porque lêem Paulo Coelho, O Segredo, Augusto Cury e outros pseudo-escritores. Mas não vamos discutir aqui o gosto da leitura suspeita e sim falar do momento da educação e sua forma mercadológica de ser usada.

Hoje no Brasil o curso de tecnólogo vem crescendo com grande velocidade, e por dois motivos: um é sua facilidade de aprovação e seu curto período de curso. Enquanto o curso acadêmico de bacharel é mais logo e de difícil aprovação. Além de que nos cursos tecnólogos se tem o conteúdo dirigido para o mercado, para as atualidades requeridas na função do setor. Porém, o que se aprende nele nada mais é que aprender a apertar um parafuso e não a função do parafuso na tal estrutura (além de aprender a apertar o parafuso), não se forma um cientista na área e sim só mais um peão de obras, como um pedreiro sem ensino médio ou um auxiliar de produção de chão de fábrica (não desmerecendo o trabalho dessas funções, é claro), no fim a pessoa se forma – como se diz no linguajar popularmente acadêmico – um peão com diploma. Não tiro o mérito da função social do ensino superior tecnológico, porque ela fecha a lacuna do desemprego estrutural no país, mas isso não é nenhum grande mérito de um país que busca tornar-se desenvolvido educacionalmente. O tecnólogo banaliza certas profissões, transformando certos tipos de trabalho em meras linhas de produção, aonde sempre terá alguém que substituirá o funcionário insatisfeito por outro em busca de trabalho, aceitando um salário baixo que não condiz com o valor real à ser pago.

Um exemplo recente que vem acontecendo é no setor de TI, setor qual antes vinha enfrentando uma série de problemas de qualificação, com o emprego centrado naqueles que possuíam experiência, mesmo sem diploma. Com o “boom” dos tecnólogos, o mercado saturou-se de profissionais diplomados, mas com pouco ou nenhuma experiência ou conhecimento para desenvolvimento de novas tecnologias e processos.

Isto é apenas um exemplo de um setor e existem vários outros com o mesmo problema de vulgarização e saturação na estrutura do trabalho que vem acontecendo no Brasil. O empregador (ou o burguês) vê isso dessa forma: “Se você não quer trabalhar, tem um morto de fome que vai aceitar esse trabalho no seu lugar e vai fazer o trabalho do mesmo jeito que você”, marginalizando a profissão e desmerecendo o profissional em si. Atualmente é algo que acontece muito em muitas empresas. Não desmereço a potência dentro do curso técnico ou tecnólogo, ele vem de, certa forma, para curar uma doença da falta de mão de obra qualificada, contudo quando a doença está curada, não há mais necessidade de mais remédios. Remédios em demasia causa algo muito pior, a overdose.

Muitos de nós precisam ver tudo isso de um outro ângulo, enxergar que não temos que nos limitar em ser apenas apertadores de parafusos, deixar de sermos só mão de obra qualificada, caindo na mediocridade. É necessário que nos tornamos algum além disso, temos que nos converter em cientistas, nos transformar em seres além da qualificação, sermos seres pensantes, seres aqueles que  transformam a realidade. São cientistas que transformaram e transformam o mundo, tornando-o mais compreendido e menos supersticioso. Não temos que ser medíocres com nossa educação, não temos que ser apenas peões no tabuleiro, podemos ser todos reis, e são reis que transformam o mundo.