Quadrinhos: Representação de uma Realidade

Capitão America e o confronto com o Nazismo.

Capitão America e o confronto com o Nazismo.

Os quadrinhos é uma das expressões artísticas vanguardistas (por assim dizer) para representar um dado momento da época, criando-se paralelos com a realidade que cerca o indivíduo ou uma idéia da sociedade, como na literatura de ficção cientifica, há quase sempre um paralelo com a realidade. Porém ainda há muito preconceito contra HQ’s (como na ficção cientifica), com a idéia que este tipo de leitura só serve para crianças e adolescentes ou que só “nerds” lêem este tipo de coisa, não passando de apenas entretenimento. Então irei mostrar como este artigo como esse pensamento pode estar equivocado, como as HQ’s representam um pensamento de uma época e sua realidade no mundo, se debruçando em sua história e dando alguns exemplos de quadrinhos que são muito mais que meras historinhas para crianças. Trançaremos um breve histórico sobre sua evolução e revolução no mundo artístico literário, como estes quadrinhos se tornaram até mesmo a mais alta forma moderna de conceito literário e artístico.

Uma Nova Leitura do Mundo

O conceito moderno de quadrinhos que conhecemos hoje não é o mesmo que havia a tempos atrás. Ele vem evoluindo como a arte e literatura, e muitas vezes, revolucionaram o mundo. A idéia de quadrinhos já existe a muito tempo, desde tempos remotos da humanidade, porém, nunca as consideramos como tal. As pinturas rupestres, os quadros medievais, renascentistas, barrocos e muitos outros nada mais são que um rascunho dos quadrinhos modernos. Digo isso, porque todos eles representavam o cotidiano de uma época, expresso em cores vivas a sua mentalidade do período, com a diferença que não havia os balões de diálogo e sem alguns elementos de literatura (aquela que conhecemos conceitualmente).

A primeira aparição dos quadrinhos modernos foi em maio 1895 num jornal, com o personagem “Menino Amarelo” de Richard Outcault, conquistando notoriedade a idéia de se fazer quadrinhos nos periódicos diários (as famosas tirinhas). Inspirados, outros autores desenvolveram personagens diferenciados, como Beth Poop, Mickey, Tintin, Mandrake e outros tantos. Essa nova dinâmica leitura desenvolveu as revistas pulp (revista impressa em um papel mais barato; pola de celulose), quadrinhos dos mais variados assuntos, que abordavam principalmente fantasia, crimes, histórias de detetives e ficção científica. Estás revistas eram histórias fechadas, com a criação dos clichês modernos e personagens memoráveis. Um desses personagens mais lembrados é O Sombra. Herói dotado de poderes sobrenaturais que utilizava como armas duas Colts 1911, além de seus poderes, era chamado de Cavaleiro da Escuridão (mera semelhança com Batman?). As histórias do Sombra ganharam mais renome quando narradas por Orson Wells no rádio e mais tarde foi realizado adaptações cinematográficas. Os pulp foram o início de uma nova forma de leitura, mas eles não passavam de entretenimento, passatempo para crianças e adolescentes, com o tempo, as revistas em quadrinhos de super-heróis começaram a tomar espaço e os pulp’s foram esquecidos, apesar de que muitos escritores e desenhistas começaram com suas carreiras neles.

No fim da década de 30 os quadrinhos vem como uma nova proposta de divertimento, contudo, seu campo se abrangeu até no mundo das ideologias, tendo sua primeira aparição destes quadrinhos em 1938 no Action Comics trazendo como protagonista o Superman. Isso fez com que os quadrinhos mudassem suas características abraçando uma representação maior do momento histórico. Na década de 40 o mundo entra em conflito com a Segunda Guerra Mundial, de um lado Aliados (EUA, Inglaterra, França, Rússia ou URSS) e do outro o Eixo (Alemanha e Itália) e os quadrinhos tomaram este espírito de guerra. O Capitão América é o precursor dessa propaganda (sendo o maior deles) contra o “Eixo do Mau”, com a famosa capa do Capitão acertando um soco no rosto de Hitler. A função dos quadrinhos nesta época era incentivar os jovens a se alistarem no exército e manter os animo dos soldados nos fronts. Logo uma era (nos quadrinhos) foi vindo após a outra (Era de Prata, Era de Bronze, Era de cobre e assim por diante), fazendo que as idéias dos quadrinhos se renovasse a cada década, transformando a realidade do mundo numa representação nos personagens em suas ambientações em suas histórias. Mas não irei me delongar muito sobre detalhes da história dos quadrinhos, no final do artigo terá uma fonte que pode ser lida para quem tiver interesse sobre esses detalhes. Fiz esse breve histórico para um entendimento melhor sobre o mundo dos quadrinhos e sua representação da realidade. Como um dado momento histórico influência suas histórias.

Vamos nos prender na idéia e essência de representação que os quadrinhos trazem e suas páginas, como ela pode ser uma leitura tão profunda sobre o mundo como nos livros, avaliando seus conceitos como leitura e aprendizado. Assim como nos livros de romances históricos, ficção científica, crimes, policiais, fantasia, filosofia, sociologia e outros estilos, nos quadrinhos há os mesmos assuntos abordados, juntando a arte gráfica como meio para expressar em variados estilos de desenhos a visão do mundo. Para ficar mais fácil as explicações, escolhi algumas obras que considero importantes dos quadrinhos.

Um mundo sem homens.

Um mundo sem homens.

O Mito da Guerra dos Gêneros : Y – The Last Man (Y – O Último Homem da Terra)

Imagine o mundo sendo erradicado de todos os mamíferos machos da Terra, onde todos que tem o cromossomo Y acabam morrendo por causa de um vírus desconhecido que ataca tal gene, e você é o único sobrevivente num mundo aonde só existem mulheres. Seria um paraíso, não é? Você (homem ou mulher) se engana que tudo isso seria um “mar de rosas”. Está é a proposta de Y – O Último Homem da Terra de Brian K. Vaughan, considerado um dos melhores quadrinistas da atualidade. Y tem uma narrativa empolgante e cheia de reviravoltas, seu protagonista é Yorick, um jovem formado em Letras que tem como hobbe ser escapista (exemplo: escapar de uma camisa de força, algemas e etc.), que acaba adotando um macaco chamado Ampersand (Ampersand é o nome deste sinal “&”). Depois do holocausto masculino, apenas Yorick e Ampersand são os únicos mamíferos masculinos vivos e terão que sobreviver em uma Terra dominada por mulheres.

A premissa desta história é simples, mas com o correr dos acontecimentos sua idéia vai se ampliando de uma forma grandiosa, fazendo muitas referências a livros, música, filmes e outros assuntos peculiares. Seu primeiro circulo de história é uma crítica muito bem elaborada ao feminismo extremista. Mostrando o quão pior pode ser uma feminista quanto o homem machista, porém mostra em outros momentos, como mulheres podem ser auto-suficientes e independentes, quebrando aquele velho paradigma que a mulher depende do homem para tudo – coisa que na nossa sociedade atual ainda existe, derrubando o mito da da guerra de generos. Yorick, durante a sua viagem para encontrar a sua namorada (que está na Austrália), conhece os mais variados tipos de mulheres, boas e más, feias e belas, corajosas e medrosas e assim por diante. No decorrer da história nos deparamos com muitas facetas da mulher e sua identidade num mundo sem homens, tendo que reerguer um novo mundo mergulhado numa desordem caótica, redescobrindo um mundo “sem a quase” presença masculina. Desesperador? Pode até ser, mas Y é uma grande ópera dramática de quem acha que um mundo dominado por mulheres seria o paraíso ou não.

Uma narrativa de linguagem nada linear.

Uma narrativa de linguagem nada linear.

A Guerra Invisivel Contra a Alienação – Os Invisíveis

Caos, anarquismo, revolução, misticismo, violência e alienação; essas seriam as palavras que definiria Os Invisíveis de Grant Morrison. Grant Morrison é um dos grandes escritores de quadrinhos para DC, Marvel e Vertigo, sendo responsável por escrever mini séries do Superman, Batman e atualmente Os Novos X-Men. Começou sua carreira de sucesso com Zenith, aonde desconstrói o gênero dos super-heróis, só que seu maior trabalho e muito elogiado pela critica é Os Invisíveis.

Os Invisíveis nos apresenta um mundo dominado pela alienação e conformismo, com uma ração “alienígena” de outra dimensão que move as cordas que nos controlam, e seus antagonistas conhecidos como Os Invisíveis, um grupo anarquista que planeja derrubar essa falsa impressão do mundo, colocada diante dos nossos olhos. Sua história usa dos mais variados artifícios como viagem no tempo, a Revolução Francesa, faz referências a personagens históricos, literatura, música e misticismo, fazendo paralelos com a nossa realidade, demonstrando como está história ficcional se aproxima da nossa realidade. Apesar de sua criação ser na década de 90, sua abordagem nos assuntos sociais é bem atual até hoje, mostrando uma sociedade alienada e cega perante a verdadeira realidade das coisas. Seus personagens são bem peculiares, tendo um adolescente revoltado e destruidor (Jack Frost), um travesti brasileiro ligado ao misticismo inca e asteca (Lord Fany), uma viajante do tempo com poderes psíquicos (Ragged Robin), uma ex-policial que tem o irmão raptado misteriosamente pela ração alienígena de outra dimensão (Boy) e um assassino com poderes mágicos (King Mob). Cada personagem tem sua importância no desenvolvimento da história, fazendo com que a história tome certas direções. A narrativa de Os Invisíveis não é linear, algumas vezes soa confusa, porém, se você tiver uma leitura mais apurada, irá perceber que há muito mais por trás da história do que se imagina.

A descontrução de um conceito de herois.

A descontrução de um conceito de herois.

Os Heróis da Realidade – Wachtmen

Este é a maior e mais bem elaborada graphic novel já criada em todos os tempos (na minha humilde opinião). Por causa desta opera gráfica o formato dos outros quadrinhos mudou completamente, sendo abordado assuntos de esfera adulta, muitas delas com criticas profundas a realidade. Seu escritor é um dos melhores roteiristas para quadrinhos da atualidade, seu nome é Alan Moore. Responsável pela criação de outras histórias de sucesso como Monstro do Pântano, Miracleman e outra de grande importância V de Vingança.

Wachtmen narra a história de um mundo aonde os super-heróis existem realmente na nossa realidade, colocando sua influência em nossas vidas. Tudo se passa nos anos 80, os EUA ganha a guerra do Vietnam graças a ajuda do Dr. Manhattan (que seria uma espécie de super-homem), Nixon é reeleito presidente, mas a Guerra Fria continua acirrada entre EUA e URSS. Alan Moore nos transporta para esse mundo que só concebemos na imaginação, heróis falíveis, com suas fraquezas e problemas pessoais, deixando eles mais humanos, desconstruindo aquele herói invencível e moralmente infalível. Quando se vai lendo as páginas, se percebe a similaridade com alguns personagens famosos dos quadrinhos, como por exemplo, o Coruja, que seria o Batman. Além de fazer está referência, Wachtmen mostra algo muito além do que mera historinha em quadrinhos, apresenta várias teorias e filosofia, como a teoria do caos, paradigmas filosófico sobre a existência humana; sua arte também é algo a parte, tanto que uma coisa que chama mais atenção (isso só na versão americana) é a capa, que tem um relógio que marca o inicio da guerra atômica (marcado para meia noite), em cada capa de cada capítulo o relógio vai se aproximando da meia noite. Wachtmen é uma epopéia do ser humano, como aquele que mais admiramos pode ser a pessoal – o herói – pode ter seus valores deturpados e suas fraquezas expostas, e desta desconstrução sair um ser melhor que fora antes.

A cultura pop em evidência.

A cultura pop em evidência.

Reconstruindo a Cultura Pop – Planetary

Este é considerado pela critica como a mais inteligente obra em quadrinhos da atualidade. Mas o porquê desse título? Para isso são duas respostas, começando pelo seu criador Warren Ellis, responsável por criar Trasmetropolitan. RED, Freqüência Global, Authority e outros, e a segunda resposta é que Planetary é uma viagem as coisas do mundo pop, com referências desde livros a filmes do século 20. Fazendo até alguns crossovers como Authority e Liga da Justiça.

O que significa Planetary? Planetary são os arqueólogos do impossível, são aqueles que buscam os mistérios do mundo. Sua história conta com personagens que vão em busca de coisas que não pensamos que existem, como monstros gigantes, fantasmas, viajante de outras dimensões e assim vai uma lista bem grande. Contando com os protagonistas, Elijah Snow, personagem que é recrutado pelo Planetary para buscar os artigos misteriosos; Baterista, que é um “buraco negro de informação”, Jakita, o músculo e velocidade do grupo.

O que mais chama a atenção nos números de Planetary são todos eles são histórias fechadas, com referências aos mais variados filmes, livros, quadrinhos e outras coisas que pertenceram em algum momento ao mundo pop, ou que se tornaram pop. Para mim este quadrinho foi um poço de enciclopédia para buscar novos conhecimentos sobre o mundo, sobre livros esquecidos, que eu comecei a ler, de filmes antigos para assistir, aprender sobre uma filosofia antiga sobre o mundo fantástico e quadrinhos que a muito tempo foram esquecidos e deveriam ser relidos. Planetary é a verdadeira viagem ao mundo esquecido da cultura popular mundial, mais uma vez revitalizado.

Uma obra memorável dos quadrinhos.

Uma obra memorável dos quadrinhos.

Potencializando uma Forma de Literatura

Estes quadrinhos que foram exemplificados, é só uma pequena parcela do que tem por ai no mundo. Eles demonstram a potência dos quadrinhos, na sua melhor forma, fazendo com que a literatura e arte gráfica se abracem de uma forma mais ampla, que também atraia aqueles que não gostam de ler livros para o mundo da leitura. Este não tão novo conceito de leitura pode – como na literatura convencional – fazer crítica política, social, econômica e etc., pode contar histórias fantásticas, contos de ficção cientifica e muitas outras histórias, além de fazer referência de livros, música, personagens importantes de uma dada época. Hoje com o advento das adaptações cinematográficas dos quadrinhos vem ganhando maior visibilidade no mundo, alguns instigado pela curiosidade vão às livrarias procurar as histórias originais comprando os encadernados. Os fãs de longa data dos quadrinhos não vêem com bons olhos as adaptações, acham que não está “fiel”, até mesmo autores – como Alan Moore – não gostam das adaptações de suas obras gráficas. Mas não vejo está situação neste ângulo, vejo que as adaptações (o mesmo serve para adaptações de livros) atrai novos leitores de quadrinhos, com boas adaptações deles poderá ser a alavanca para mostrar a verdadeira face dos quadrinhos como uma nova potência na literatura.

Fonte sobre a História dos Quadrinhos: Fanboy

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A Ficção Cientifica Clássica e o Cyberpunk

A ficção cientifica, nesta época, é um gênero literário pouco explorado pelos leitores (não todos, é claro) e pouco procurado por outros leitores mais leigos, e poucas vezes me deparo com pessoas que leem este tipo de literatura, que é tão rica e visionária. Na verdade, nunca encontrei ninguém que tivesse algum contato com ela, nem as leituras mais famosas, como: Eu, Robô, Star Trek, 2001 Uma Odisséia do Espaço, Duna e entre outras. Mesmo com a renovação da ficção cientifica, o movimento literário cyberpunk, hoje ela anda meio esquecida. Sendo que nos anos 60 até o fim dos anos 70 foi uma literatura de ponta e bem vista pela academia e crítica. Nos anos 80 veio a renovação do gênero, com alguma resistência dos mais conservadores, mas houve a revolução da ficção cientifica, o Cyberpunk.

Vou traçar aqui um breve histórico de cada estilo de literatura e sua importância no mundo literário.

Isaac Asimov escreveu sobre a história da ficção cientifica, divindo-a em três partes. Seus escritos sobre esta história é, de certa forma, filosófica, e traçado a idéia do mundo fantasioso desde das épocas remotas quando se contavam histórias mitológicas ou histórias para assustar mentes mais débeis. Aqui não irei me ater a isso, começarei do seu princípio, quando a ficção cientifica começou a ser escrita de forma como conhecemos.

A ficção cientifica é bem mais antiga do que aparenta ser, começando com Julio Verne. Julio Verne foi um grande visionário para sua época, seu estilo era extramente rico em detalhes e sua imaginação ultrapassava os limites da tecnologia da época. Em suas obras relatava sobre aventuras em lugares exóticos e suas tecnologias empregadas. Uma de suas “invenções” mais famosa foi o submarino do seu celebre “20.000 Léguas Submarinas”. Deste livro foi tirado o conceito do submarino moderno. Além disso previu a invenção de variados dispositivos, como o foguete e o avião. Com Júlio Verne há um novo tipo de literatura, um estilo que fala do futuro, e não histórias fantásticas cheias de misticismo e mitologia.

Contemporanêo de Júlio Verne vem H.G. Well, foi historiador e jornalista, escreveu vários livros, alguns retratavam o sentimento que ele e a população possuía perante governantes e condição social. Herbert George Wells não foi visionário como Verne, porém, ele alcança um novo patamar da ficção cientifica. H.G. Wells escreveu várias obras sobre utopias, onde começava com algum tipo de catástrofe e no fim os personagens dão as mãos e juntos fazem um mundo perfeito. Mas não é só de mundos perfeitos que Wells escreveu, depois de perceber algumas experiências sociais funestas, começou a escrever algumas distopias, onde os personagens tem uma vida “normal” e acabam por perceberem que vivem em um tipo de prisão sem grades, se rebelam ou descobrem a verdade e no fim, morrem ou são domados pelo sistema vigente. Seus livros fazem um paralelo com a realidade, mesmo se passando no futuro, seu estilo fazia uma reflexão sobre a história humana e uma análise social e antropólogica.

E depois de H.G. Wells de suas idéias distópicas, veio uma grande safra de leituras distopicas. Um dos mais conhecidos dentre os escritores é George Orwell (Eric Arthur Blair), no seu livro 1984, que conta a história de Winston Smith, um membro do partido do Grande Irmão, onde no seu íntimo começa a se rebelar contra o modelo totalitário do governo vigente. O Grande Irmão é uma figura paterna e salvadora, que se proclama o protetor do povo. O livro mostra como o fascismo (ou autocracia) pode ser perverso e controlador, como a dita unidade social que entrega o poder nas mãos de um tipo de salvador ou grupo, podendo com o tempo desvirtuar as leis, a ética e a moral, sem nem mesmo a população (na sua grande maioria) perceber tal mudança, os levando a uma cegueira brutal. O livro faz uma alusão ao o que se tornou a Russia depois da ascensão de Stalin no poder.

Orwell sempre foi militante do comunismo e simpatizando do anarquismo. Vendo o caminho que a Revolução Russa tomou também escreveu o livro “Revolução dos Bichos”, que poderia se classificar como um pequeno resumo de como a Revolução Russa começou e terminou. Como H.G. Wells, George Orwell fez um paralelo com a realidade no livro 1984, mostrando com o fascismo pode ser tão real quanto na ficção. Depois de Orwell começou surgir outros títulos sobre distopias. Os mais conhecidos e celebres são: Laranja Mecânica, de Anthony Burguess; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; Fahrenheit 451, Ray Bradbury. Estes outros títulos também são grandes obras literárias em relação a distopias, cada um mostrando as variadas faces do totalitarismo.

Os anos 80 foi a reviravolta na literatura de ficção cientifica, o mundo também estava mudando, com o advento do neoliberalismo, e grandes corporações privatizando estatais, grandes bancos se espalhando pelo mundo. Uma nova corrente literária vinha a nascer, fruto das distopias, o Cyberpunk. Com a ficção cientifica clássica entrando em “crise”, o movimento cyberpunk toma espaço e ganha notoriedade. O precurso deste movimento literário foi William Gibson, com o seu livro Neuromancer. Neuromancer conta com elementos do mundo hacker, inteligência artificial, cyberespaço e o submundo, além de trazer o estilo policial noir (que já existia). Quase todos estes elementos que eram novos para a época, principalmente a idéia do cyberespaço, um mundo virtual onde pode se conectar a ele e navegar fisicamente neste mundo, elemento que no filme Matrix é bem aparente (no livro o nome do mundo virtual é Matrix). O personagem do livro é John Case, um cowboy (termo usado no livro para designar hackers) que fazia trabalhos de obtenção de informação, e por tentar roubar seus empregadores, sofreu um envenenamento no seu sistema neural e não poderia mais se conectar a Matrix. Vivendo no submundo, em um lugar chamado Chiba City, tentando procurar uma cura para o envenenamento. A procura dele aparece Molly (personagem que lembra Trinity do Matrix), que diz a ele que tem a cura para o envenenamento, em troca Case tem que fazer um trabalho. Então com a promessa de cura, Case embarca na trama. Neuromancer abarca temas que hoje são bem atuais, como a internet, e alta tecnologia e uma divisão social bem ampla. Grandes corporações que mandam no mundo ou uma grande empresa tendo o monopólio de todo o mercado.

O livro quando foi lançado em 1984, teve uma crítica bem receptiva e foi premiado com o Nebula, Hugo e Phillipe K. Dick, que são os Oscars da ficção cientifica.

A ficção cientifica clássica criou um pouco de resistência contra a nova corrente do cyberpunk. No mundo cyberpunk, as viagens espaciais são quase que abandonadas, sendo um lugar  de alta tecnologia, sujo, violento e extremamente artificial. Enquanto que na ficção cientifica clássica, essa visão de mundo caótico de alta tecnologia é refutada, afinal, quanto mais tecnologia, mais qualidade de vida. Porém o cyberpunk alcançou de forma mais concisa o mundo que vivemos agora, ele avançou de uma forma sobre a vida humana. No cyberpunk fica bem aparente como a vida social mudou,  essa relação fica cada vez mais distante, onde uma classe social, ideologicamente dominante, é muito antagônica a outra. Desta antagônia sai a luta entre os dois lados. Este mundo artificial é um grande paralelo com a realidade, que hoje em dia é bem real. A busca por um corpo perfeito, silicones, cirurgias plásticas, mulheres de capas de revista com corpos perfeitos, no geral a industria da beleza, que nada mais é que algo artificial e vazio. O cyberpunk é visionário na tecnologia da internet. Que em muitos livros há variados uso dela, com nomes diferentes.

Atualmente cada vez mais nos aproximamos deste mundo cyberpunk, onde o mundo se torna cada vez mais artificial, onde o abismo de diferenças de classe aumenta mais e a violência se espalha por vários lugares.

Na ficção cientifica clássica avançaram em um ponto importante, as viagens interplanetárias. Toda está parte da ficção clássica foi cheias de viagens a planetas desconhecidos, colonizações de planetas ou galáxias inteiras, e explorações espaciais. Hoje também devemos a esses visionários que enxergaram muito além do seu tempo, sendo um destes exemplos o livro Duna de Frank Herbert. Livro que aborda viagens por dobra de espaço, meio ambiente, messianismo e política. Outro exemplo seria as ficções de Bradbury, envolvendo colonização de planetas, estão aparecendo como projetos da NASA para um futuro próximo.

Depois deste pequeno resumo da história da ficção cientifica, percebo que algo se perdeu no tempo. Hoje a leitura destes temas futuristas é pouco procurado. As pessoas preferem ler Crepúsculo, livros de auto-ajuda e outras pseudo-literaturas que abarrotam as prateleiras das livrarias. A maioria das pessoas que lêem não se importam que a literatura de ficção cientifica, porque acham que algo sobre o impossível, algo que não vai acontecer, algo inexistente. Mas vejam só como que é as coisas hoje em dia. Temos internet, celulares, televisão digital, notebooks e outros dispositivos eletrônicos que muitos achavam que nunca existiriam. A ficção cientifica é inventora e visionária, vai longe na imaginação, mas nunca esquecendo a realidade que o cerca.

Indicações para leituras:

Neuromancer – William Gibson

Piratas de Dados – Bruce Sterling

Eu, Robô – Isaac Asimov

Duna – Frank Herbert

Guerra dos Mundos – H.G. Wells

Volta ao Mundo em 80 dias – Julio Verne.

Para quem gosta mais de quadrinhos:

Transmetropolitan – Warren Ellis

RanXerox – Tanino Liberatore e Stefano Tamburini

Ex-Machina – Brian K. Vaughan

Para quem prefere filmes:

Matrix

Blade Runner

Ghost in the Shell

Equilibrium

Distrito 9

Laranja Mecânica

Nineteen Eighty-Four

THX 1138

Akira

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