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Senso Comum, Midia e Alienação

Faz um bom tempo que eu estou querendo escrever sobre esse assunto. Queria aguardar um pouco mais para poder escrever sobre isso, para me sentir seguro do que iria escrever e acho que agora é o momento que prova muitas coisas que penso e falo, sobre o senso comum, mídia e alienação. O senso comum é manipulado pela mídia, que a tal opinião pública na verdade não existe, é pura reprodução do que está na televisão, revista e jornais de ampla distribuição. Sendo no fim, as pessoas se limitando ao que apenas vê nesses meios de comunição e nunca buscando mais informações. Tornam-se limitadas e no fim tudo isso vira ignorância e preconceito ao que é diferente.

Vamos começar explanando sobre alguns acontecimentos importantes que viraram notícias nesses último 6 meses. Começando com a cobertura sobre a invasão da reitoria da USP, pela causa da prisão de alguns jovens por fumarem maconha no campus.

O caso da USP

Em 2011 houve a invasão da reitoria da USP pelos estudantes, na sua maioria da área de humanas. Na mídia da “opinião pública” noticiaram que tudo começou com a prisão de três estudantes que portavam ou fumavam (a parte do “fumavam” nunca ficou clara) maconha no campus. Quando houve a prisão deu inicio a confusão no campus, policia de um lado e estudantes de outro, assim ocasionando uma batalha campal, acabando com gás lacrimogêneo, cassetetes e feridos. Cuminando com isso a invasão da reitoria.

Agora vamos com o que a mídia de grande circulação noticiou e com o que se sabe que realmente aconteceu.

Realmente houve confusão pela prisão dos estudantes portando maconha, uns dizem que a policia foi truculenta e outros dizem que não, que ela só estava cumprindo com o seu papel. Porém este ponto está meio escuro, ninguém na verdade sabe o que aconteceu exatamente e não há como se ater nisso. A midia de grande circulação noticiou que a invasão só aconteceu porque os estudantes queriam a liberação da maconha dentro do campus. Ledo engano para quem pensa assim. Claro que havia estudantes que queriam a liberação da maconha, não iremos ser hipocritas nesse ponto, mas a real motivação da invasão vem de muito mais acontecimentos anteriores.

Está situação vem se arrastando desde 2006 com a invasão da reitoria pelos alunos, isso ocasionado pela a não eleição que teve na USP. O reitor João Grandino Rodas foi colocado dentro da reitoria, não tendo uma votação democrática,  como Alckmin dizia sobre “uma aula de democracia” nesta última invasão, resumindo, ele assumiu a cadeira de reitor ilegitimamente. Com isso houve um protesto dos estudantes da USP contra tal fato e no fim, terminou com a policia invadindo o campus e distribuindo cacetadas e gás lacrimogêneo contra os estudantes, autorizado pelo reitor. Detalhe importante Rodas é considerada persona non grata na universidade de São Francisco da faculdade de direito, por mais variados motivos arbitrários. Um destes motivos foi de uma repressão de um manifesto pacifico de estudantes do curso de direito. Rodas autorizou a policia entrar no campus e prender os manifestantes. Além disso está intimamente envolvido com a ditadura militar e com desaparecidos na época, fora várias acusações de corrupções e desvio de verba. A prisão dos estudantes  foi apenas o estopim para tudo que estava sendo acumulado de alguns anos, precisou de um pouco de fogo e assim o barril explodiu e acabou com a invasão da reitoria pelos estudantes da USP.

A midia adorou o episódio e começou a noticia-la como sendo um manifesto pró-maconha, mostrando faixas de estudantes brandindo alguns cartazes pela legalização da maconha e só focando alguns estudantes que apenas queriam fumar seu baseado em paz. Mas quem estivesse lá via que a coisa era bem diferente, tinha muitos cartazes contra o reitor e as reformas institucionais arbitrárias impostas pelo governo, havia muitos estudantes querendo uma universidade mais democrática e que fosse de de fácil acesso para todas as camadas sociais, principalmente pelas camadas mais baixas. A rede Globo queria colocar os estudantes invasores como maconheiros, filhinhos de papai que queriam se passar por revolucionários, como se fosse meros desocupados.  No fim tudo acabou com a humilhação publica dos estudantes com a desocupação da reitoria feita pela policia, sendo que só a rede Globo teve acesso primeiro ao local, falando que foi tudo muito “tranquilo”. Assim o senso comum adotou o velho discuso conservador: Que esses estudantes tem que tomar pau da policia mesmo; bando de maconheiros; despertando alguns outros conservadores furiosos das redes sociais, que repetiam as mesmas coisas. Mais uma vez o senso comum caminhou para o conservantismo e se limitou no que a midia noticiou e não procurou além disso, vendando os próprios olhos para a verdade.

Caso Pinheirinho

Esse é o mais recente e muitos devem se lembrar bem como que foi a desocupação do Pinheirinho. Foi um espetáculo televisivo acompanhado pelo Brasil inteiro, com a policia despejando todos os moradores que já viviam à 8 anos no local, e mais uma vez, quem teve acesso ao local foi a famosa rede Globo, que tiveram um carro de uma associada incendiado. Quando foi transmitido a notícia, apenas foi mostrado que o Governo de São Paulo só estava cumprindo com o seu papel como estado e cumprindo a “lei”. O que poucas sabem que o ato de despejo foi suspensa pelo TRF (Tribunal Regional Federal) e o presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Cavalcante, comentou que a policia cometeu um grave erro em dar continuidade no processo.

Vou comentar alguns pontos sobre a situação do despejo, mostrar alguns fatos que não foi para os grandes noticiários.

Um ponto foi já dito anteriormente, que é sobre a suspensão do TRF. Conversei com um amigo que esteve lá, perguntei sobre se chegava conta de luz, água e sabe qual foi a resposta, “sim, sempre chegava as contas nas casas dos moradores”, se chegava as contas como o governo de SP e os orgãos não fizeram um acordo para legalizar a situação do local? Simples. Interesse da elite. O estado não queria legalizar porque queria reaver o dinheiro perdido com a Selecta S/A (massa falida), não havia interesse em legalizar o local para elite. Sendo legalizado o estado ganharia muito mais com o IPTU arrecadado. Mas não houve diáologo da parte da prefeitura, nem do governo de SP. Seu interesse estava em despejar mais de 8 mil pessoas, e passar o terreno para uma empresa privada, visando só o interesse da elite e dos próprio bolsos.

Um fotografo de outro jornal de menor circulação conseguiu se infiltrar no meio da desocupação e começou a tirar várias fotos do conflito entre policia e moradores. Várias fotos mostravam policiais com fardas sem identificações, usando luvas pretas e armas de fogo em punho (detalhe, as armas não estavam municiadas com projeteis de borracha), e usando da truculencia para desocupar moradores que não queriam abandonar suas casas. Quando a policia se deu conta que não era um jornalista com carta branca para tirar fotos a policia começou a perseguição do fotografo que felizmente conseguiu escapar e as fotos foram para em alguns sites, mas nem todos sabem delas. Foram ofuscadas pelas “espetaculares imagens” da rede Globo e Cia.

Agora temos o aparecimento de abuso sexual da policia denunciados por Eduardo Suplicy, e relatodos por moradores. Depois de muita culpa jogada nas costas um do outro, apareceu os policiais que tinham cometido os abusos sexuais. E a televisão (para fazer a sua parte) deram uma pequena nota para noticiar, mas sem o espetáculo como no foi no Pinheirinho.

Caso da Greve dos Policiais na Bahia

Sobre esse assunto vou ser breve, já que é o mais recente de todos. O carnaval na Bahia foi quase que sabotado pelos policiais grevistas. Está greve foi um prato cheio para a rede Globo, Record, Band e SBT, porém a Globo foi a que teve o maior acesso as informações e conseguiu noticiar a situação com a maior cobertura, e com sua “imparcialidade”. Mais um vez os grevistas foram colocados como os “comunistas comedores de criançinhas”, petistas (ou para alguns pelegos) e vagabundos que não tem nada para fazer. Tudo foi noticiado de um lado da questão, do lado do estado da Bahia, não sendo visto o lado dos policiais de greve. O pior de tudo foi mostrar que os grevistas estavam usando as famílias como um tipo de escudo para a ocupação da Assembleia Legislativa, além disso, a greve foi considerada ilegal, e algum tempo depois alguns policiais foram presos por fometarem a greve no RJ e SP.

Primeiramente greve é direito constitucional de todo o trabalhador, sendo ele de empresa privada ou pública, então aonde está o direito da greve? Se o sindicato da categoria não apoiar a greve, porém, se 75% (essa informção não é exata, mas é assim que funciona) aderir a greve, a greve se torna legitima. Prender policiais por fomentar greve é contra lei e é o direito do trabalhador de expressar sua insatifação sobre o trabalho exercido que é mau remunerado. Isso são fatos que ilustram bem como podemos ser miopes sobre certas coisas noticiadas. Nada é o que parece ser.

Do senso comum à alienação

Nosso problema começa com a criação dos grandes meios de comunicação modernos aqui no Brasil. Na ditadura militar a rede Globo cresceu (cresceu pois era a única que tinha equipamentos de ponta – que só existiam nos EUA e Europa – numa época em que importações eram vetadas. Como conseguiam tais equipamentos se não pelas mãos do governo?) e aproveitou o momento para se impor como a mídia de imparcialidade, noticiando os principais fatos, querendo mostrar a opinião pública. O senso comum, a massa, como não tendo muita “opção” em que acreditar, preferiram acreditar na mídia. Naquele tempo a mídia, de certa forma, era de confiança. Com a ditadura militar muita coisa mudou. Há quem diga que foi culpa dos militares, mas não, foi tudo orquestrado pela elite brasileira e estrangeira. Tudo por causa da “infestação vermelha”.  Inclusive a queda da ditadura e as diretas já foram fomentadas pela Globo, baseada em interesses pessoais…digamos assim, um cara subiu em uma cadeira, juntou um bando de caras pintadas e tirou uma foto que circulou o país, fazendo com que mais e mais pessoas aderissem ao movimento.

Hoje nos tempos mais conteporâneos as coisas não são muito diferentes quanto a isso. A massa continua sendo apática as coisas além de suas casas, não se interessam por nada que não seja da sua vida particular, sempre delegando os seus diretos a outros, e principalmente acreditando no quê é noticiado por ai nos grandes meios de comunicação. Fazendo que o seu senso comum seja alienado e manipulado por mais variadas mentiras, como diz aquele ditado nazista: “Uma mentira repetida várias vezes, se torna verdade”. Mesmo que essa verdade não pertença a realidade dos fatos. Em parte isso não é culpa das pessoas, porque os meios de informação pertencem aos grandes empresários, a culpa do senso comum adotado pela massa é a sua indiferença sobre as coisas que os rodeiam, deixando-as omissas, e o pior tipo de pessoa não é a que tem uma posição, pois essas você sabe aonde estão e o que pensam, mas as omissas, das quais você não sabe nada e podem falhar, dar as costas nos momentos mais cruciais. Este senso comum tem que acordar para verdade, olhar além dos muros que os cercam, se livrar dos grilhões da alienação, deixar de serem apenas gado indo para o matodouro. Devemos buscar novas alternativas para nos informar sobre os fatos, hoje com a internet há como fazer isso. Nem tudo pode-se confiar, mas buscando com cuidado, indo além e usando um pouco de intuição para buscar as informações necessárias sobre os fatos.

Enquanto muitos de nos ficarmos apáticos, nada vai mudar e normalmente vai piorar. Como foi visto no caso Pinheirinho, tudo o que aconteceu lá é um resquicio de ditadura militar, que sempre está a espreita para emergir novamente, com auxilio da mídia a fomentar esses alicerces baseados em “ordem e cumprimento da lei”. O senso comum tem que ser mudado, para não cair nas mentiras que são repetidas pelas redes de notícias que dizem expressar a opinião pública, essa mudança começa começa com a dúvida, questionando, buscando outros meios de saber os fatos, pois assim sairá da alienação e irá ver através dos muros. Questione toda autoridade!

Indicação de um jornal que mostra o outro lado (leiam!): Vice

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Sobre Leonardo

Não tenho muito a dizer. Sou acadêmico cinema, tenho hobbes como literatura, cinema, música e quadrinhos e muitas outras coisas. Na verdade, escreverei muito sobre isso (assim espero). Tenho uma tempestade de idéias na cabeça e algumas vezes não consigo pensar em nada. Escrevo mais agora para exteriorizar as minhas idéias e ver como que elas ficam do lado de fora da minha cabeça. Vamos ver se elas vãos ser constantes ou não.

Uma resposta para “Senso Comum, Midia e Alienação

  1. Muito massa Leo! Realmente o senso comum é algo muito complicado nos dias de hoje, ninguém mais busca saber a verdade, pois todos acreditam que a verdade absoluta é o que se passa na televisão. Infelizmente cada dia mais a Globo ganha mais credibilidade com o seu público, o permite ela fazer o que quiser com uma noticia ou um fato ocorrido.

    Mas a luta continua e acredito que vai chegar o momento em que estaremos livres dessa alienação televisiva.

    Grande abraço!

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