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A Ficção Cientifica Clássica e o Cyberpunk

A ficção cientifica, nesta época, é um gênero literário pouco explorado pelos leitores (não todos, é claro) e pouco procurado por outros leitores mais leigos, e poucas vezes me deparo com pessoas que leem este tipo de literatura, que é tão rica e visionária. Na verdade, nunca encontrei ninguém que tivesse algum contato com ela, nem as leituras mais famosas, como: Eu, Robô, Star Trek, 2001 Uma Odisséia do Espaço, Duna e entre outras. Mesmo com a renovação da ficção cientifica, o movimento literário cyberpunk, hoje ela anda meio esquecida. Sendo que nos anos 60 até o fim dos anos 70 foi uma literatura de ponta e bem vista pela academia e crítica. Nos anos 80 veio a renovação do gênero, com alguma resistência dos mais conservadores, mas houve a revolução da ficção cientifica, o Cyberpunk.

Vou traçar aqui um breve histórico de cada estilo de literatura e sua importância no mundo literário.

Isaac Asimov escreveu sobre a história da ficção cientifica, divindo-a em três partes. Seus escritos sobre esta história é, de certa forma, filosófica, e traçado a idéia do mundo fantasioso desde das épocas remotas quando se contavam histórias mitológicas ou histórias para assustar mentes mais débeis. Aqui não irei me ater a isso, começarei do seu princípio, quando a ficção cientifica começou a ser escrita de forma como conhecemos.

A ficção cientifica é bem mais antiga do que aparenta ser, começando com Julio Verne. Julio Verne foi um grande visionário para sua época, seu estilo era extramente rico em detalhes e sua imaginação ultrapassava os limites da tecnologia da época. Em suas obras relatava sobre aventuras em lugares exóticos e suas tecnologias empregadas. Uma de suas “invenções” mais famosa foi o submarino do seu celebre “20.000 Léguas Submarinas”. Deste livro foi tirado o conceito do submarino moderno. Além disso previu a invenção de variados dispositivos, como o foguete e o avião. Com Júlio Verne há um novo tipo de literatura, um estilo que fala do futuro, e não histórias fantásticas cheias de misticismo e mitologia.

Contemporanêo de Júlio Verne vem H.G. Well, foi historiador e jornalista, escreveu vários livros, alguns retratavam o sentimento que ele e a população possuía perante governantes e condição social. Herbert George Wells não foi visionário como Verne, porém, ele alcança um novo patamar da ficção cientifica. H.G. Wells escreveu várias obras sobre utopias, onde começava com algum tipo de catástrofe e no fim os personagens dão as mãos e juntos fazem um mundo perfeito. Mas não é só de mundos perfeitos que Wells escreveu, depois de perceber algumas experiências sociais funestas, começou a escrever algumas distopias, onde os personagens tem uma vida “normal” e acabam por perceberem que vivem em um tipo de prisão sem grades, se rebelam ou descobrem a verdade e no fim, morrem ou são domados pelo sistema vigente. Seus livros fazem um paralelo com a realidade, mesmo se passando no futuro, seu estilo fazia uma reflexão sobre a história humana e uma análise social e antropólogica.

E depois de H.G. Wells de suas idéias distópicas, veio uma grande safra de leituras distopicas. Um dos mais conhecidos dentre os escritores é George Orwell (Eric Arthur Blair), no seu livro 1984, que conta a história de Winston Smith, um membro do partido do Grande Irmão, onde no seu íntimo começa a se rebelar contra o modelo totalitário do governo vigente. O Grande Irmão é uma figura paterna e salvadora, que se proclama o protetor do povo. O livro mostra como o fascismo (ou autocracia) pode ser perverso e controlador, como a dita unidade social que entrega o poder nas mãos de um tipo de salvador ou grupo, podendo com o tempo desvirtuar as leis, a ética e a moral, sem nem mesmo a população (na sua grande maioria) perceber tal mudança, os levando a uma cegueira brutal. O livro faz uma alusão ao o que se tornou a Russia depois da ascensão de Stalin no poder.

Orwell sempre foi militante do comunismo e simpatizando do anarquismo. Vendo o caminho que a Revolução Russa tomou também escreveu o livro “Revolução dos Bichos”, que poderia se classificar como um pequeno resumo de como a Revolução Russa começou e terminou. Como H.G. Wells, George Orwell fez um paralelo com a realidade no livro 1984, mostrando com o fascismo pode ser tão real quanto na ficção. Depois de Orwell começou surgir outros títulos sobre distopias. Os mais conhecidos e celebres são: Laranja Mecânica, de Anthony Burguess; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; Fahrenheit 451, Ray Bradbury. Estes outros títulos também são grandes obras literárias em relação a distopias, cada um mostrando as variadas faces do totalitarismo.

Os anos 80 foi a reviravolta na literatura de ficção cientifica, o mundo também estava mudando, com o advento do neoliberalismo, e grandes corporações privatizando estatais, grandes bancos se espalhando pelo mundo. Uma nova corrente literária vinha a nascer, fruto das distopias, o Cyberpunk. Com a ficção cientifica clássica entrando em “crise”, o movimento cyberpunk toma espaço e ganha notoriedade. O precurso deste movimento literário foi William Gibson, com o seu livro Neuromancer. Neuromancer conta com elementos do mundo hacker, inteligência artificial, cyberespaço e o submundo, além de trazer o estilo policial noir (que já existia). Quase todos estes elementos que eram novos para a época, principalmente a idéia do cyberespaço, um mundo virtual onde pode se conectar a ele e navegar fisicamente neste mundo, elemento que no filme Matrix é bem aparente (no livro o nome do mundo virtual é Matrix). O personagem do livro é John Case, um cowboy (termo usado no livro para designar hackers) que fazia trabalhos de obtenção de informação, e por tentar roubar seus empregadores, sofreu um envenenamento no seu sistema neural e não poderia mais se conectar a Matrix. Vivendo no submundo, em um lugar chamado Chiba City, tentando procurar uma cura para o envenenamento. A procura dele aparece Molly (personagem que lembra Trinity do Matrix), que diz a ele que tem a cura para o envenenamento, em troca Case tem que fazer um trabalho. Então com a promessa de cura, Case embarca na trama. Neuromancer abarca temas que hoje são bem atuais, como a internet, e alta tecnologia e uma divisão social bem ampla. Grandes corporações que mandam no mundo ou uma grande empresa tendo o monopólio de todo o mercado.

O livro quando foi lançado em 1984, teve uma crítica bem receptiva e foi premiado com o Nebula, Hugo e Phillipe K. Dick, que são os Oscars da ficção cientifica.

A ficção cientifica clássica criou um pouco de resistência contra a nova corrente do cyberpunk. No mundo cyberpunk, as viagens espaciais são quase que abandonadas, sendo um lugar  de alta tecnologia, sujo, violento e extremamente artificial. Enquanto que na ficção cientifica clássica, essa visão de mundo caótico de alta tecnologia é refutada, afinal, quanto mais tecnologia, mais qualidade de vida. Porém o cyberpunk alcançou de forma mais concisa o mundo que vivemos agora, ele avançou de uma forma sobre a vida humana. No cyberpunk fica bem aparente como a vida social mudou,  essa relação fica cada vez mais distante, onde uma classe social, ideologicamente dominante, é muito antagônica a outra. Desta antagônia sai a luta entre os dois lados. Este mundo artificial é um grande paralelo com a realidade, que hoje em dia é bem real. A busca por um corpo perfeito, silicones, cirurgias plásticas, mulheres de capas de revista com corpos perfeitos, no geral a industria da beleza, que nada mais é que algo artificial e vazio. O cyberpunk é visionário na tecnologia da internet. Que em muitos livros há variados uso dela, com nomes diferentes.

Atualmente cada vez mais nos aproximamos deste mundo cyberpunk, onde o mundo se torna cada vez mais artificial, onde o abismo de diferenças de classe aumenta mais e a violência se espalha por vários lugares.

Na ficção cientifica clássica avançaram em um ponto importante, as viagens interplanetárias. Toda está parte da ficção clássica foi cheias de viagens a planetas desconhecidos, colonizações de planetas ou galáxias inteiras, e explorações espaciais. Hoje também devemos a esses visionários que enxergaram muito além do seu tempo, sendo um destes exemplos o livro Duna de Frank Herbert. Livro que aborda viagens por dobra de espaço, meio ambiente, messianismo e política. Outro exemplo seria as ficções de Bradbury, envolvendo colonização de planetas, estão aparecendo como projetos da NASA para um futuro próximo.

Depois deste pequeno resumo da história da ficção cientifica, percebo que algo se perdeu no tempo. Hoje a leitura destes temas futuristas é pouco procurado. As pessoas preferem ler Crepúsculo, livros de auto-ajuda e outras pseudo-literaturas que abarrotam as prateleiras das livrarias. A maioria das pessoas que lêem não se importam que a literatura de ficção cientifica, porque acham que algo sobre o impossível, algo que não vai acontecer, algo inexistente. Mas vejam só como que é as coisas hoje em dia. Temos internet, celulares, televisão digital, notebooks e outros dispositivos eletrônicos que muitos achavam que nunca existiriam. A ficção cientifica é inventora e visionária, vai longe na imaginação, mas nunca esquecendo a realidade que o cerca.

Indicações para leituras:

Neuromancer – William Gibson

Piratas de Dados – Bruce Sterling

Eu, Robô – Isaac Asimov

Duna – Frank Herbert

Guerra dos Mundos – H.G. Wells

Volta ao Mundo em 80 dias – Julio Verne.

Para quem gosta mais de quadrinhos:

Transmetropolitan – Warren Ellis

RanXerox – Tanino Liberatore e Stefano Tamburini

Ex-Machina – Brian K. Vaughan

Para quem prefere filmes:

Matrix

Blade Runner

Ghost in the Shell

Equilibrium

Distrito 9

Laranja Mecânica

Nineteen Eighty-Four

THX 1138

Akira

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Sobre Leonardo

Não tenho muito a dizer. Sou acadêmico cinema, tenho hobbes como literatura, cinema, música e quadrinhos e muitas outras coisas. Na verdade, escreverei muito sobre isso (assim espero). Tenho uma tempestade de idéias na cabeça e algumas vezes não consigo pensar em nada. Escrevo mais agora para exteriorizar as minhas idéias e ver como que elas ficam do lado de fora da minha cabeça. Vamos ver se elas vãos ser constantes ou não.

2 Respostas para “A Ficção Cientifica Clássica e o Cyberpunk

  1. edgar h trapp ⋅

    Senhores

    Gostaria de saber de quem é a pintura do homem nu de costas que aparece na primira pagina do site???

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